"Saúde"

Pesquisa mostra que a prática de exercícios e o planejamento alimentar ajudam a reduzir o índice de gordura no interior da estrutura óssea. Acúmulo pode agravar a osteoporose.


"Malhação para os ossos"

Muito se engana quem pensa que só é possível perceber as gordurinhas a mais flagrando as sobrinhas quesaem das roupas. Nem todas ficam evidentes assim. Podem estar onde menos se imagina: no interior dos ossos. Mas sem neuroses! Não há certeza entre cientistas se ela faz totalmente mal à saúde. Em um estudo publicado recentemente na revista Bone. a equipe da pesquisadora Maya Styner, da Escola de Medicina da Universidade de North Carolina, nos Estados Unidos, detalha como usou uma nova técnica para obter imagens no interior de ossos e analisar duas importantes questões, o que uma dieta rica em calorias e a pratica de exercício físico fazem à gordura de dentro do osso e, principalmente, por que isso importa para a medicina. “Esse é um novo campo”, garante Styner “Não sabemos exatamente como ela é produzida ou por que está lá. Há um monte de perguntas sem resposta” Uma das dificuldades na análise é porque esse tipo de gordura está completamente envolta no osso. Exige que os cientistas utilizem pequenas fatias do tecido - uma de cada vez - para estuda-la. Em busca de uma maneira mais precisa de avaliação, Styner apostou na colaboração por osmio, desenvolvida pelo pesquisador Mark Horowitz, da Universidade de Yale, nos EUA. Esse elemento é conhecido por se ligar aos ácidos graxos que formam as partículas de lipídios. Dessa forma, fica possível visualizar, por meio de microtomografias computadorizadas, a quantidade de gordura no osso. Quanto mais densa a mancha, maior o problema. Vencida essa etapa, a cientista passou a se dedicar à parte que estava mais interessada como a gordura óssea se comportaria em cobaias alimentadas com uma dieta normal, se comparadas àquelas com alto consumo de calorico? E ainda qual seria a interferência da atividade física nesse processo?A equipe de pesquisadores deixou que os camundongos corressem à vontade em uma roda. Sob uma dieta normal, os bichos que se exercitaram sofreram uma diminuição da gordura óssea - que se manteve igual entre os animais sedentários. O mesmo experimento foi feito com ratos que seguiram uma dieta altamente calórica. Como esperado, a gordura óssea disparou entre os sedentários, mas, quando esses mesmos animais fizeram atividade física, diminuiu significativamente. Os resultados, segundo a equipe, mostra como determinadas partes de ossos podem mudar de semana para semana, particularmente nas áreas perto das articulações. E o processo não acontece somente por meio de dieta e exercício. Em um terceiro teste, as cobaias receberam uma droga para o controle do diabetes chamada rosiglitazona, substância que baixa o açucar no sangue.

Mau efeito revertido

“No osso, temos as céluas que fazem sangue e as gordurosas. À medida que envelhecemos, aumenta a quantidade de gordurosas. O princípio disso está no fato de que a mesma célula progenitora pode formar a célula gordurosa e as células ósseas (osteobblácitos). Na infância, a produção maior é de osteoblácitos, mas isso muda até a velhice, quando a quantidade de gordura é maior que a quantidade de células ósseas. Um grupo da Associação Americana de Diabetes, em 2010, fez um estudo com pessoas que usavam a rosiglitazona para o diabetes, avaliando a densidade óssea. A descoberta foi que havia uma diminuição dessa densidade em quem administrava o remédio porque ele promovia a produção de células adiposas em detrimento de osteoblácitos. A novidade do estudo de Styner é que o exercício físico pode reverter isso”


“Mostramos que ela também aumenta significativamente a gordura da medula nos ossos”, diz Styner. O resultado traz evidências de porque o medicamente tem como efeito colateral o aumento drástico do risco de fraturas ósseas. Além disso, Styner descobriu que, quando os ratos que tomaram a rosiglitazona passaram a se exercitar, o efeito de engorda do osso pela droga caiu. COMUM NA VELHICE A existência de gordura no interior dos ossos é conhecida há uma centena de anos, mas o crescente interesse dos pesquisadores pela gordura da medula óssea (BMF) é maior nos últimos 15. Isso porque ela deixou de ser vista como mais um simples tecido de enchimento para ser considerado um dos atores do microambiente interno do osso. O osso não é composto só de tecido ósseo, mas também de medula óssea. Ela pode ser chamada de vermelha quando está cheia de células hematopoéticas, isto é, do tipo mais comum de células-tronco adultas, ou ainda de medula amarela, devido à maior ocorrência de adipócitos - células que armazenam gorduras e regulam a temperatura corporal.

Ao nascer, as cavidades ósseas são preenchidas principalmente com medula vermelha. A partir da infância, começa a ocorrer uma conversão; as células hematopoéticas são gradualmente substituídas pelo tipo amarelo. Uma reconversão, no entanto, já pode ser observada em pessoas que passam por situação de falta de oxigênio em tecidos do corpo humano, como fumantes ou portadores de apnéia obstrutiva do sono. Nessas condições, as células hemtopoéticas começam a substituir as de gordura dentro do osso, processo que, por mais que pareça o contrário, é ruim para o organismo. “Apesar de serem encontradas grandes variações individuais, existe, globalmente correlação positiva entre a gordura óssea e idade”, reforça o especialista Pierre Hardouin, da Universidade de Lille Nord-de-France, na França. EFEITOS DIVERSOS Em um trabalho publicado sobre o assunto no início deste ano, na revista científica Joint Bone Spiner, Hardouin descreve que os adipócitos da medula óssea são células que interagem com o ambiente. Em adultos, a medula óssea amarela apresenta um volume de aproximadamente 7% da gordura total do corpo e cerca de 2,6kg do peso corporal, equivalente a um dispositivo de armazenamento de cerca de 23 mil calorias. Como outros, os adipócitos da medula óssea não tem somente a função de armazenamento. Estão envolvidos também com células secretores ligadas, por exemplo, à secreção de hormônios, em particular, a leptina e adiponectina. A leptina pode ser secretada, inclçusive, em maior quantidade pelos adipócitos da medula do que pelas células de gordura sub-cutâneas. O principal efeito desse hormônio é sobre o controle do apetite, mas evidências recentes demonstram que está envolvida no controle da massa corporal, na cicatrização e na função cardiovascular “Um bom conhecimento sobre ela nos traria muito, tanto para o diagnóstico quanto para a terapêutica. No entando, vários aspectos continuam sem uma completa elucidação pondera Hardouin. Entre as preocupações, está a interferência dessa gordura na ocorrência de doenças. A osteoporose, por exemplo, é uma complicação frequente da anorexia nervosa, e uma forte suspeita de participalção nesse problema é o aumento da gordura nos ossos. ”Nos sere humanos, é bem estabelecido ue a alta gordura da medula está associada com perda de massa óssea na osteoporose. em particular durante a anorexia nervosa e no envelhecimento”, descreveu, em 1971, o cientista francês Pierre Jean Meunier, o primeiro a relatar essa relação inversa de fatores.



Fonte: Jornal Estado de Minas - 27/10/2014 - Por: BRUNA SENSÊVE